terça-feira, 27 de agosto de 2013

Whisky

o vinho, sem dúvidas é minha bebida predileta depois da água. Contudo, na minha idade, às vezes leva a um estado um pouco inconveniente e absolutamente desnecessário, próprio de Dionísio-Baco, causando euforia, êxtase, (essa alegria desmedida dos infernos) e despencando para o caos e para a tristeza profunda. A cachaça, minha segunda bebida, abre o apetite, esquentando os pulmões e trancando o coração, impedindo-o de pensar nas grandes merdas da vida. Já a cerveja, relaxa os músculos dispersando o cansaço e o desânimo, combina com sol e com nenhuma expectativa. O Whisky, a última da minha lista, é uma bebida solene. Se você pede um Whisky na minha idade, em geral será bem tratado, primeiro por conta do preço e segundo, pela escolha. O Whisky não causa! Ele arrefece a alma impedindo que se faça qualquer bobagem. Agora entendo muito quando minha vó me oferecia uma dose de Whisky. Ela me dava conselhos elegantes enquanto mexia o gelo com o dedo indicador. Não é apologia a bebidas. É bom que fique claro. Não sou de apologias. Nem mesmo um mapa de uma especialista. Trata-se apenas de um relato sobre minhas preferências e o que elas causam em mim. Só. Ademais, eu estou quase parando de beber. E o que isso me causa é muito bom. Clareza.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

fratura exposta

quando eu tinha 15 anos, um dos meus maiores sonhos era sofrer uma fratura exposta no braço direito, por questões óbvias: a escola era um saco e eu era uma adolescente sombria e egocêntrica. Felizmente, isso nunca ocorreu, mas, me fez constatar que nessa idade eu era um cemitério de ambições.
Com o tempo fui percebendo que essas fraturas vão ocorrendo metaforicamente. Percorrem o coração, o fígado, e englobam pulmões, sonhos, fetiches, dentes e por aí vai. Mas, um couro grosso vai envolvendo tudo que se parte ficando parecido com um exoesqueleto, com uma armadura meio deformada, e a gente assim,  prossegue, porque é o que deve ser feito.
Refletindo agora sobre qual seria meu maior sonho, exatamente às 21:02 do dia 14 de agosto de 2013, eu diria que é me tornar um pouco mais íntima das coisas, do meu corpo e de tudo que me cerca. Mapear com o coração cada centímetro que eu conseguir. Dizem que os orientais costumam preencher com ouro as emendas de suas valiosas porcelanas quebradas para valorizar ainda mais a história de cada uma delas. Assim seja também com tudo que se parte e for passível de conserto.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

horizonte embaçado

300 janelas fechadas com cadeados. 300 janelas (uma dentro da outra). 300 chaves. 300 paisagens. 300 possibilidades. No entanto, janelas não são portas

domingo, 4 de agosto de 2013

Band-Aid

você me lambe devagar,  como os animais lambem  suas feridas. Mas, o que tenho são só cicatrizes de dores que eu mesma já curei. No entanto, sua língua é bem-vinda, pontiaguda, úmida e aquecida. Faço gosto que ela volte quando der.

sábado, 20 de julho de 2013

saudade não existe

abri a janela sem esperar absolutamente nada. De súbito um vento lânguido entrou separando as mechas do meu cabelo começando pela nuca até o topo, como se quisesse me despentear. Fiquei pensando nas pessoas que já se foram e onde elas estarão. Nas ondas de ar noturnas?! Nos raios de sol suaves que atravessam as árvores do cerrado?! Nas centelhas de terra vermelha que se deitam nos meus sapatos?!
Rachel's - An Evening Of Long Goodbyes

sábado, 13 de julho de 2013

macio

sua mão pousada em meu ventre, faz promessas. Afaga por dentro e ajeita meu coração que há tempos virou estômago

quarta-feira, 10 de julho de 2013

post mortem

quando eu morrer, que joguem minhas cinzas num palco de teatro. E logo após, passem a vassoura para que um novo espetáculo recomece.