quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

armadilha

no meio da faxina congelei admirando a teia. Não pude desfazê-la de pronto. Tornou-se mais urgente admirá-la: petrificada. Olhando cuidadosamente pude verificar um inseto minúsculo. Era possível imaginar sua luta durante horas tentando desprender-se. Seu corpo movimentando-se delicadamente e morrendo no balanço do material flexível...
É como me sinto: um minúsculo animal preso em uma teia invisível. A diferença é que eu também sou a aranha.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Filtro miocardinal

da plateia eu te vejo tentando espalhar a base com fator de proteção 60. Dá pra ver as lágrimas empoçadas embaixo dos olhos e a tentativa de embargar a saída. É em vão. Deixando ir existem mais chances de que tudo isso parado não apodreça dentro de ti. Deixando ir talvez você possa sentir o que os iluminados sentem. Deixando ir talvez passe essa azia. O coração quer cometer novos erros. Deixa ele seguir em frente. Só isso.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

adeus menina

quando eu tinha doze, minha mãe me alertava: "menina, se economize, pra não enjoarem da sua cara". Daí eu acreditei. Levei como mantra. Virou uma crença. Informação grudada no osso. Quando eu cresci, tomei banho com bucha de aço. Raspei com faca de pão. Rasurei com unhas afiadas. Nada deu jeito. Nem auto-hipnotize. Resolvi ficar em silêncio. Eu sei que meu corpo vai falar e arrumar um jeito de esquecer esse engôdo. E daí, quem sabe, essa impressão estranha de que tem alguém me estrangulando passe. Daí, quem sabe esse saco de pedras que eu carrego fure e todas elas saiam rolando pra nunca mais.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

para Oxum

vou banhar-me de dourado
intentando encharcar-me
com a doçura de teu amor transparente
a purpurina entranhada será uma armadura
será feito ímã que atrai só a verdade
iluminada com a certeza de que errar é patrimônio universal
nenhum crivo faz sentido quando a reflexão é certeira
O sol cegará qualquer julgamento que me coloque em lugar de superioridade
Beija-me com tua confiança, abraça-me com tua beleza,
guia-me com tua humildade
também sou tua





sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

...

sonhei que você vinha me buscar de carro e quando eu descia você me olhava forte. Me beijava minuciosamente com a intenção de alcançar todos as células da minha boca. Em silêncio, apontava a porta do carro. Eu andava e obedecia. Você entrava, colocava o cinto, acendia o malboro "light" de costume me olhando com deferência. Ligava o carro resoluto como se soubesse para onde ir. Parava em um lugar lotado. Abria a porta do carro, me puxava pela mão, estudava o local mais tumultuado e me beijava como se o beijo fosse uma atração ensaiada para uma plateia bem pouco relevante. Terminado o beijo, você puxava a minha mão e tudo recomeçava num eterno lopping. Foi nesse ponto que entendi que estava num sonho. Chamam isso de sonho lúcido. Nesse caso eu chamo de sonho ilusório porque sabemos que decisão não é seu forte. Pena. Me lembrarei do teu nome daqui a um ano?!

sábado, 31 de janeiro de 2015

somnus

das 4 às 6 foi assim: chamado de bem-te-vi, cama em chamas e buraco na barriga que vazava e dava pra ver do outro lado. Das 4 às 6 eu desejei conhecer Berlim, tomar um café colombiano, nadar numa piscina aquecida e solitária, ter meus cabelos penteados por mãos dóceis, ter minha insônia velada. Das 4 às 6 eu quis  você escalando minha janela bêbado e vulnerável gritando:"eu fui burro deixa eu entrar?". Das 4 às 6 a eternidade virou um cisco e eu voltei a dormir como um peixe nadando numa poça quase seca. Das 4 às 6.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Pescaria

depois daquele dia, me perguntei quem é você quando está só. Devo confessar que desejei estar perto pra te olhar sem ser vista (evidentemente). De uma certa maneira, isso já acontece: quando estou com você, tenho a impressão de que não sou vista e que você está sempre esperando que algo mais interessante ocorra nas redondezas para poder sair correndo sem que te julguem um canalha.
 Seu rosto transparece uma espera. Parece-me que você quer que eu lhe mostre alguma habilidade genial escondida nos recônditos do meu bolso, tais como tocar gaita de fole, ou colecionar olhos de vidro, quem sabe ser designer de jóias feitas com dentes de tubarão que eu mate com as próprias mãos e até adestradora de joaninhas. Quem sabe algo que justifique a sua presença efêmera e "ilustre"ao meu lado, uma "reles" mulher normal. De uma certa maneira, eu não ligo. Desde a minha adolescência não perco o meu tempo tentando convencer ninguém de que sou interessante. Mas, por outro lado, fico refletindo se esse combinado entre nós não assemelha-se aos contratos leoninos escritos em letras minúsculas, onde só um dos proponentes é contemplado e não há equanimidade.
Suspeito que minha "invisibilidade"ocorra pelo fato de eu não oferecer nenhum tipo de status agregado. Não alimentar seu ego e seus jogos de retroalimentação. Não representar a musa que seduz seus amigos e todos à volta. Não ser uma princesa delicada nos modos e doce nos gestos.
Eu represento o inesperado. Você não sabe como lidar comigo. E não estou me gabando. Estou constatando.
Seu discurso reforça que você prefere ser refém do mesmo jogo que está habituado. Talvez ele seja assim: conquistar a musa do pedestal, disputar poder com ela, disputá-la com outros,  amá-la e perdê-la para outro que às vezes pode ser um amigo.
 Quando sabemos o caminho das nossas ações basta reproduzí-las, não é necessário refletir se são genuínas.
No entanto, meu corpo quis ter outras tardes como as daquele dia. Porque o corpo sabe quando o toque é honesto e a experiência é válida. Mas, minha cabeça insiste que não devo estar onde não sou tratada como uma mulher de infinitas possibilidades.
O que nos valoriza é nossa subjetividade, e isso só quem não tem preguiça terá acesso.
Penso que a palavra conhecer pede a presença de outros verbos: arriscar, abrir, observar, tocar, olhar,
cutucar, admirar...andam lado a lado.