se meu corpo fosse uma casa, ela seria cheia de corredores e portas fantasmagóricas que se fechariam sozinhas rangendo as dobradiças só para assustar.
Se meu corpo fosse uma casa, o assoalho seria branco e preto e afundaria se acaso alguém pisasse no lugar errado...
Se meu corpo fosse uma casa, as janelas seriam tortas imitando o expressionismo alemão e teriam dentes de crocodilo para triturar e cuspir tudo que não valesse a pena. Se meu corpo fosse uma casa, suas paredes seriam transparentes, mas, tão impenetráveis quanto o mais duro e resiliente metal. Se meu corpo fosse uma casa, não teria móveis, portanto, cada cômodo seria semelhante e ao mesmo tempo distinto, confundindo labirinticamente qualquer olhar.
Se meu corpo fosse uma casa, ele teria um quintal cheio de Trombetas de anjos rosados, Flores de seda, as magentas Cristas-de-galo, as rubras Lágrimas de Cristo, muitos Bastões - do - Imperador (as preferidas de Burle Marx), um lado tomado por Gloxínias alaranjadas e Flores-morcego penduradas em árvores frutíferas. Um jardim feito para se perder...
Se meu corpo fosse uma casa, ele não teria um tapete escrito bem-vindo, porque torno-me a cada dia mulher desconfiada e segura daquilo que quero e não quero.
As portas não se abririam tão fácil, nem tão pouco aos pontapés. Nem chaves, nem palavras mágicas, nem poemas de amor, nem bajulações.
As portas saberiam automaticamente para quem deveriam abrir-se.
domingo, 27 de abril de 2014
domingo, 30 de março de 2014
Carta aberta para minha mãe
minha cara, quisera eu ter tido o destino de ser sua mãe. Evidente que essa proposta só me seria interessante se fosse realizada no momento em que me encontro.
Eu poderia também ser uma mulher desconhecida que adotasse o seu abandono e o transformasse em acolhimento e confiança.
Eu te faria penteados com fitas e manteria seus cachos intactos feito masterpieces.
Sua pele seria hidratada e climatizada imitando os cuidados dados às orquídeas mais delicadas e selvagens que nascem nos topos das montanhas.
Eu cuidaria para que você enxergasse o quão extraordinária é. Eu cuidaria para apagar essas ranhuras de tristeza que brilham reluzentes no fundo verde (m)aguado dos teus olhos. Eu cuidaria para que esse silêncio mortificante ficasse tão leve que saísse voando pra nunca mais voltar.
Você teria meu peito para descansar as esperanças de um futuro doce. Você seria o que nasceu pra ser.
Eu extinguiria a maldição do desamparo, essa, que nos ronda feito zumbis há duas gerações.
E enfim, você me amaria.
Eu poderia também ser uma mulher desconhecida que adotasse o seu abandono e o transformasse em acolhimento e confiança.
Eu te faria penteados com fitas e manteria seus cachos intactos feito masterpieces.
Sua pele seria hidratada e climatizada imitando os cuidados dados às orquídeas mais delicadas e selvagens que nascem nos topos das montanhas.
Eu cuidaria para que você enxergasse o quão extraordinária é. Eu cuidaria para apagar essas ranhuras de tristeza que brilham reluzentes no fundo verde (m)aguado dos teus olhos. Eu cuidaria para que esse silêncio mortificante ficasse tão leve que saísse voando pra nunca mais voltar.
Você teria meu peito para descansar as esperanças de um futuro doce. Você seria o que nasceu pra ser.
Eu extinguiria a maldição do desamparo, essa, que nos ronda feito zumbis há duas gerações.
E enfim, você me amaria.
sábado, 29 de março de 2014
transumano
abocanho o sol pra ver seus traços de luz atravessando cada poro que me integra. Queimo eterna nas profundezas desse paraíso, voando feito cinza em brasa, numa alegria suprema...
sexta-feira, 28 de março de 2014
venoso
pulsa o azul asfixiante nesses tempos estranhos. Tinge o peito, feito aquarela e leva a última gota de ar dos amantes.
Reza teu Deus. Pede. Implora. Nada há de salvar quem não toma pra si o agir. Lê teus romances. Malha teu Judas. Mugi a última letra do teu alfabeto moribundo. Finge e canta esse teu caminhar morno. Leva pra longe esse teu descaso que a vida já está por demais ciano.
Reza teu Deus. Pede. Implora. Nada há de salvar quem não toma pra si o agir. Lê teus romances. Malha teu Judas. Mugi a última letra do teu alfabeto moribundo. Finge e canta esse teu caminhar morno. Leva pra longe esse teu descaso que a vida já está por demais ciano.
segunda-feira, 24 de março de 2014
March
existe um vento único, filho das manhãs de outono...de todos, o que eu mais prezo. É vento de invasão, que limpa até os cantos das unhas, faz ranger os cabelos e penteia os ossos. De um frescor eterno e carregado de uma dúvida fabulosa, canta o que está por vir...
segunda-feira, 17 de março de 2014
em linha torta
faz uns 5 anos pelo menos, que eu não me interesso por alguém de maneira encantada, dessas que quer desvendar, que quer deixar um bicho-presente-morto na porta pra agradar. Dessas que não dão medo, porque de um jeito estranho você CONFIA ( sem saber muito o que te move). Não enxerga complicações porque intui que tem algo ali, esperando estranhamente por você. Entende que desses lugares obscuros, de repente, surgem beijos que liquefazem o corpo e esfriam o estômago.
quinta-feira, 13 de março de 2014
clara est la nuit
existe uma calma solene que se confunde com frieza e distanciamento...um engolir lento, uma respiração suave e regular... Uma linha reta longe, fixa, que executa apenas sua função de criar profundidade à cena...a certeza cruel e boa de que nada escapa sem que haja uma função...uma segurança impenetrável, quase tola, tão fulgaz... dura um suspiro.
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