sábado, 12 de julho de 2014

ouro de tolo

penso que um coração falido e inconsciente é aquele que só quer o outro um casulo oco impregnado de um belo verniz, assim sendo, mero objeto de desejo, dominação e atenção.
 A esse exercício de poder costumam denominar amor.
O outro (animal caçado) só lhe serve enquanto um "coração (?!)" ainda não capturado. Por outro lado, o ato de apaixonar-se torna essa mesma presa: refém, logo, desinteressante.
Mas, se um segundo predador aparece, a presa volta a ser atraente, desse modo,  motivo de competição, resulta num trofeuzinho, ainda que finja que não, (frágil e a mercê dos humores alheios) até que algo mais interessante apareça.
A mim essa dinâmica arcaica e doente já não interessa faz tempo, simplesmente porque não evolui e trata ambos participantes como seres ordinários e substituíveis.
Não existe algo além? Sagrado e desprovido de ilusões em que a entrega não decorra de um acordo leonino, escrito em letras minúsculas onde apenas um será beneficiado? Não existe relação onde seja possível viver sem acusações, mágoas, adestramentos e artificialismos?
Minha utopia é um amor justo e nesse sentido livre. Um amor que abraça, inclusive, a inexistência.

sábado, 5 de julho de 2014

(entregue-se)

abro teu peito a unha
deposito meu coração
Junto ao seu, agora, reordenam-se
 Veias pulsam em ritmo justo
somos um, mas, sabemos: somos Dois
Viveríamos ambos sem esse amor
 contudo, vivendo-o somos mais fortes,
enfim.

domingo, 29 de junho de 2014

6B


o melhor de todos os lápis chama-se: 6B. Se eu fosse um lápis eu me casaria com ele.
Porque 6B vai amanteigando o papel e os traços vão surgindo soltos, felizes... Tão macio que deixa rastros ao redor e os dedos desavisados vão digitalizando a folha... O que nem sempre é ruim. Pra isso tem limpa-tipo.
 Com 6B eu quero desenhar o mundo, rabiscar as laterais das coisas, escrever obscenidades nas paredes brancas, desenhar amores que ainda terei, garatujar a calça jeans, fazer dentes de vampiros em cartazes de políticos...
Com 6B eu quero sentar a bunda na cadeira e desenhar até os dedos caírem podres...
Por um mundo onde o lápis 6B faça parte da cesta básica.

terça-feira, 17 de junho de 2014

amor verdadeiro

uma criança pergunta: como é ser adulto? Você gosta?
Eu respondo: é chato
A criança pergunta novamente: porquê?
Eu: porque posso fazer o que eu quiser...
Criança: tipo o quê?
Eu: almoçar brigadeiro
Criança: e ter dor de barriga?
Eu: sim, talvez.
Criança: sua mãe não disse que dá dor de barriga?!
Eu: sim
Criança: e você não obedeceu?
Eu: sim
Criança: porquê?
Eu:  minha mãe não consegue gostar de mim. Então, nunca sei se ela está com inveja da minha liberdade ou se foi um conselho sincero
Criança: porque ela não consegue gostar de você?
Eu: porque a mãe dela não conseguiu gostar dela
Criança: e você? Consegue gostar dela?
Eu: sim, consigo...eu acho
Criança: e quem gosta de você?
Eu: você?!
Criança sorrindo: sim!

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hemidactylus mabouia

cartografei meu corpo com lupa e desenhei um mapa pra não perder detalhes...  E enfim, me aproximar do que eu sempre fugi: o esqueleto, as carnes, a pele, a sombra.
Fotografei cicatrizes, hematomas e a textura das camadas mais superficiais. Concebi defeitos e observei as tatuagens que a própria vida se encarregou de construir.
Percebi a imagem que não corresponde ao que desejam de mim e me permiti não ser estandarte de beleza padrão, ou qualquer outra bobagem parecida. Prefiro não me confundir.
 Quero olhar no espelho e ver refletidas as veias, o coração pulsante, feito lagartixa albina: transparente figura-fundo. Digna. Inteira. Única.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Morto não paga passagem

10:32 do dia 6 de maio desse ano. Asa sul na altura da 16, espero o baú pra rodô. Olho o céu. Respiro fundo. Um primeiro baú para. Não é o meu. Um homem forte, jovem, baixo, belo e negro, usa calça e camisetas pretas. No pé meias brancas gastas e sujas. Ele se joga por trás do ônibus. Intenciona não pagar. O motorista o expulsa. Ele é humilhado. Repete a cena com mais dois ônibus sem sucesso. Conversamos:
Eu- oi, toma esse dinheiro! Entre pela frente, por favor.
Ele - não. Obrigado, moça. Eu tenho dinheiro. Além do mais, morto não paga passagem.
Eu- como assim?
Ele- eu não quero gastar com o baú.
Eu- porque?
Ele- porque vou gastar com pedra...crack, sabe?
Eu- entendi...
Ele- se eu pegar seu dinheiro vou comprar mais pedra... Eu tô morto, moça. Morto não paga passagem.
Eu - obrigada pela honestidade.
Ele- de nada. Só não achei certo te enganar.
Eu- (faço a pergunta clichê com muito constrangimento) já pediu ajuda?!
Ele - acabei de sair de uma clínica...saí ontem doido pra fumar pedra...
Eu- puxa...que triste...
Ele- (com o olhar longe) muito triste.... Triste demais.
Ele continua sua jornada inglória. Sigo meu caminho pra asa norte.
Triste.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

carne crua

discursos consistentes não me interessam faz tempo, pois me dão a ligeira impressão de que em sua maioria, são baseados em excelente bibliografia (além de uma boa alimentação e conta bancária) e pouca referência prática conectada com as dificuldades diárias de qualquer cidadão/ã.
 Um dos meus maiores medos na vida é me distanciar da "realidade" crua. Dessa do estudante que acorda 4 da manhã para frequentar uma escola menos pior; do rapaz que almoça bananas porque é mais barato; ou da garota de 15 anos que fugiu de casa para não ser mais molestada.
A vida é boa no meu quadrado, mas, isso não pode me fazer esquecer que sou também o homem que dorme ao relento e conversa sozinho envolto em seus trapos fétidos. Esse homem amparado apenas pelos braços do frio mortal do outono que eu tanto amo...
Os buracos que eu tropeço todos os dias  nessas calçadas quase inexistentes, são como chacoalhadas na alma, essa, que as vezes dorme em seu próprio umbigo. Não é o budismo, o taoísmo ou a meditação transcendental que me lembram que todos/as somos um/a e sim os alagamentos na rua e os banhos de leptospirose que não perdoam ninguém.
Essa vontade de nunca perder de vista o avesso das coisas reverbera para todas as áreas da minha vida. Assim sendo, um lado meu quer escorregar as mãos no amor e escavar com as unhas até chegar nas memórias mais sombrias, mais brutas e mais claras. Esse mesmo lado quer apenas o ponto sensível de tudo.