domingo, 31 de agosto de 2014

Mun ha

6 itens mofados dentro da geladeira e uma leve falta de apetite resultam em um jantar vergonhoso: 4 pirulitos (dois de abacaxi, 1 de uva e 1 de laranja)...
Enquanto Bukowski se orgulhava de encher a cara de álcool eu não deveria alardear sobre o excesso de açúcar e a minha dificuldade em administrar uma dispensa.
É quase um atestado de incompetência consigo mesma. Bom pra pensar profundo...e mudar tudo de novo.

sábado, 2 de agosto de 2014

voltar rapidamente para algo

hoje, passeando e bebendo sol,  lembrei de um dia em que eu estava descalça, com um sapato em cada mão e você disse: "cuidado, pode ter escorpião escondido embaixo das folhas secas. Coloca o sapato, vai". Me deu saudade enorme do teu amor torto e confuso que enjoa em 5 minutos e passa a amar outras/os, porque a mim, de repente, perdeu a graça.
Daí, pensei que eu te beijaria lentamente só pra conferir se no gosto da tua saliva tem alguma gota-memória de mim, porque: sim, eu quis você alí, ao meu lado, às 10 da manhã

sábado, 12 de julho de 2014

ouro de tolo

penso que um coração falido e inconsciente é aquele que só quer o outro um casulo oco impregnado de um belo verniz, assim sendo, mero objeto de desejo, dominação e atenção.
 A esse exercício de poder costumam denominar amor.
O outro (animal caçado) só lhe serve enquanto um "coração (?!)" ainda não capturado. Por outro lado, o ato de apaixonar-se torna essa mesma presa: refém, logo, desinteressante.
Mas, se um segundo predador aparece, a presa volta a ser atraente, desse modo,  motivo de competição, resulta num trofeuzinho, ainda que finja que não, (frágil e a mercê dos humores alheios) até que algo mais interessante apareça.
A mim essa dinâmica arcaica e doente já não interessa faz tempo, simplesmente porque não evolui e trata ambos participantes como seres ordinários e substituíveis.
Não existe algo além? Sagrado e desprovido de ilusões em que a entrega não decorra de um acordo leonino, escrito em letras minúsculas onde apenas um será beneficiado? Não existe relação onde seja possível viver sem acusações, mágoas, adestramentos e artificialismos?
Minha utopia é um amor justo e nesse sentido livre. Um amor que abraça, inclusive, a inexistência.

sábado, 5 de julho de 2014

(entregue-se)

abro teu peito a unha
deposito meu coração
Junto ao seu, agora, reordenam-se
 Veias pulsam em ritmo justo
somos um, mas, sabemos: somos Dois
Viveríamos ambos sem esse amor
 contudo, vivendo-o somos mais fortes,
enfim.

domingo, 29 de junho de 2014

6B


o melhor de todos os lápis chama-se: 6B. Se eu fosse um lápis eu me casaria com ele.
Porque 6B vai amanteigando o papel e os traços vão surgindo soltos, felizes... Tão macio que deixa rastros ao redor e os dedos desavisados vão digitalizando a folha... O que nem sempre é ruim. Pra isso tem limpa-tipo.
 Com 6B eu quero desenhar o mundo, rabiscar as laterais das coisas, escrever obscenidades nas paredes brancas, desenhar amores que ainda terei, garatujar a calça jeans, fazer dentes de vampiros em cartazes de políticos...
Com 6B eu quero sentar a bunda na cadeira e desenhar até os dedos caírem podres...
Por um mundo onde o lápis 6B faça parte da cesta básica.

terça-feira, 17 de junho de 2014

amor verdadeiro

uma criança pergunta: como é ser adulto? Você gosta?
Eu respondo: é chato
A criança pergunta novamente: porquê?
Eu: porque posso fazer o que eu quiser...
Criança: tipo o quê?
Eu: almoçar brigadeiro
Criança: e ter dor de barriga?
Eu: sim, talvez.
Criança: sua mãe não disse que dá dor de barriga?!
Eu: sim
Criança: e você não obedeceu?
Eu: sim
Criança: porquê?
Eu:  minha mãe não consegue gostar de mim. Então, nunca sei se ela está com inveja da minha liberdade ou se foi um conselho sincero
Criança: porque ela não consegue gostar de você?
Eu: porque a mãe dela não conseguiu gostar dela
Criança: e você? Consegue gostar dela?
Eu: sim, consigo...eu acho
Criança: e quem gosta de você?
Eu: você?!
Criança sorrindo: sim!

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hemidactylus mabouia

cartografei meu corpo com lupa e desenhei um mapa pra não perder detalhes...  E enfim, me aproximar do que eu sempre fugi: o esqueleto, as carnes, a pele, a sombra.
Fotografei cicatrizes, hematomas e a textura das camadas mais superficiais. Concebi defeitos e observei as tatuagens que a própria vida se encarregou de construir.
Percebi a imagem que não corresponde ao que desejam de mim e me permiti não ser estandarte de beleza padrão, ou qualquer outra bobagem parecida. Prefiro não me confundir.
 Quero olhar no espelho e ver refletidas as veias, o coração pulsante, feito lagartixa albina: transparente figura-fundo. Digna. Inteira. Única.